Eu estava em minha casa e esperava que a chuva chegasse de Jean-Luc LAGARCE, com direção de Antunes Filho estreia no Teatro Anchieta dia 21 de setembro.

SOBRE O EVENTO

Início: 21/09/2018 21:00
Fim: 16/12/2018 18:00
Onde: tEATRO aNCHIETA - R. Dr. Vila Nova, 245 - Vila Buarque, São Paulo

O novo espetáculo de Antunes Filho, Eu estava em minha casa e esperava que a chuva chegasse do dramaturgo contemporâneo francês, Jean-Luc Lagarce, retrata o cotidiano de cinco mulheres que esperam a volta do caçula da família. Nesta peça, de modo atemporal, descortina-se um contar interminável de hipóteses sobre o retorno do único homem, que partiu de casa, após se desentender com o pai. No decorrer do espetáculo – e de suas múltiplas versões –,o espectador assiste a um entrecruzar-se contínuo de possibilidades. Neste jogo cênico, o enredo, aparentemente simples, encontra-se estrategicamente costurado pelas cinco mulheres. Resta ao espectador tecer a sua própria versão da história. O elenco é composto pelas atrizes Fernanda Gonçalves, Daniela Fernandes, Viviane Monteiro, Susan Damasceno e Rafaela Cassol.

 

Sobre a dramaturgia

Lagarce compôs seu espetáculo à maneira de um novelo narrativo. Nele não há apenas um fio exposto, guiando e orientando a história. Ao contrário, existem inúmeros fios que levam a “soluções” e a caminhos diversos. Cada uma das cinco mulheres apresenta a sua versão, ou seja, no desenrolar da encenação, uma a uma tece seu ponto de vista e a forma como imaginou e imagina os fatos. A partir dessas versões, o espectador se depara com uma gama de possibilidades, advindas dos fios narrativos que ora convergem, ora se contrastam. Assim, por exemplo, o conflito que estrutura o enredo, a saber, o desentendimento entre pai e filho que culminou na partida do caçula, é representado – instaurando assim um verdadeiro metateatro, complexo e labiríntico – e imaginado, sobretudo imaginado, pelo prisma subjetivo lançado por cada uma Delas, as quais sustentam esta família inominável.

 

Sobre o espetáculo

O espetáculo de Antunes Filho consegue extrair a teatralidade do texto de Lagarce, minuciosamente elaborado e estrategicamente embaralhado, para o palco. Para isso, a atenção do diretor redobrou-se constantemente, uma vez que foi preciso, antes mesmo de conceber a encenação propriamente dita, investigar, mapear e decifrar a escrita poética deste importante dramaturgo e diretor teatral.  

 

Antunes Filho sobre o espetáculo

“Isto é apenas uma peça. Um espetáculo cujos vazios precisei preencher. Preencher com ator, preocupando-me sempre em colocar a palavra no seu devido lugar, pois é a palavra, aqui, o grande protagonista. O jogo de Lagarce com a palavra é paradoxal, pois ele se mostra escondendo. É um trabalho detetivesco. Lagarce troca, experimenta, reconstrói, lapida e rearranja incansavelmente as palavras. Diante disso, tive também que reinventar, experimentar, trocar, adaptar e criar. Caso contrário, eu sucumbia. Foi com esse jogo que travei uma luta árdua.”

 

“O ator, para enfrentar este labor, para conseguir habitar e preencher o palco com seu corpo e sua voz, precisa sempre “estar”. Ele não pode simplesmente “ser”. Ele não “é”, ele “está”. Ele não deve se considerar acabado, pronto, pois assim ele ficará imóvel e preso. Ao invés disso, ele necessita sempre “estar”, estar em algum lugar, sempre aberto a mudanças e à instabilidade. Somente neste estado de mudança permanente, é que o ator encontrará caminhos. Só aí ele se tornará infinito, disposto a sempre se reinventar.”    

 

De acordo com Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc São Paulo, “ O CPT – Centro de Pesquisa Teatral do SESC-SP, sediado no Sesc Consolação e coordenado pelo diretor teatral Antunes Filho, é uma referência do teatro brasileiro e, desde 1982, vem realizando um sistemático processo de pesquisa, através de experimentos práticos e teóricos sobre os elementos fundamentais das artes cênicas, além de promover atividades integradas a partir de estudos sobre a encenação contemporânea que, além da repercussão internacional, resulta na formação de novos talentos nas áreas de cenografia, dramaturgia e atuação.”

Neste momento em que se debruça sobre Jean-Luc Lagarce, Antunes defronta-se com um dramaturgo, que é atualmente o autor contemporâneo mais montado na França, o qual traz em suas peças, o uso sistemático e aleatório dos fluxos de pensamento, memória e imaginação, que servem como contraponto a uma realidade que a cada dia faz com que as personagens se sintam mais solitárias e presas nos próprios processos mentais de significação, criando algo único, genuíno e  singular. E Antunes busca dar conta desta narrativa enovelada estabelecendo uma responsabilidade na atuação. O ator/atriz-criador como possibilidade de ação que se desdobra para futuros sempre incertos.”   

 

Sinopses sugeridas (várias versões da história, assim como se desenrola na peça. Todas as sinopses são possíveis. O veículo pode escolher a sua)

 

Em torno da casa, a imagem do único homem é um febril consolo. Cinco mulheres giram em torno dele, totem inominável. Os desejos ora se confundem, ora se fundem. A espera do filho não aprisiona apenas a mãe, mas a mais velha de todas, a mais velha, a segunda e a mais nova, habitantes desse imaginar, fértil e doloroso.

Uma diz a outra, que diz a outra, que continua a outra, a história de todas. Sempre a mesma: “ele partiu porque o pai”... Repetem, reencenam, interpretam e reinterpretam as falas. Incansável é este jogo cênico, porque incansável é a labuta delas. Cinco atrizes à espera. Sempre prontas. Representaram ontem, hoje repassam o texto, sempre com novas nuances e amanhã estarão revigoradas para nova jornada, sempre a mesma. Mas não desistem.

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Um velho disco, riscado pelo tempo, toca, incansavelmente, a mesma faixa. Cinco mulheres, de idades distintas, ouvem, atentas, a música. Com o tempo, repetem-na. Contudo, cada uma delas apresenta uma versão. Apesar de mesma, a música é sempre outra.

A chuva está prestes a desabar. O céu, acinzentado, agoura as nuvens. Amontoam-se, no espaço antes azulado, uma sobre a outra. Enegrece o dia. O sol, acuado, espera. Pássaros sabotam o voo. Folhas agasalham-se. Bichos e homens aguardam o desabar das águas. O tempo, de relance, apavora-se. E tudo à espera da chuva. Mas não chove.      

Uma vez o filho voltaria e dessa vez elas estariam ali, como sempre estiveram, para vê-lo chegar. Uma vez uma disse à irmã mais velha que desejaria dançar, quando o irmão voltasse e que dançaria com um vestido vermelho. Outra vez, enraivecida, outra esbravejou pela vida que poderia ter tido e que não teve. Ainda outra vez, a mãe, apesar da desilusão, pediu paciência para as outras. A mais nova de todas, uma vez, gritou. Gritava pela vida que era preciso, incansavelmente, levar.

Ele virá ou ele veio? Ela estava feliz pela chegada dele ou receosa em preservar sua ausência? Ele brigou com o pai? O pai odiava-o? Elas realmente o aguardavam? O que teria acontecido com ele? Estariam prontas para falar com ele? Quanto tempo seria preciso até que ele acordasse? O que teria passado com ele todos esses anos? Foram anos ou dias? Estariam apenas imaginando? Ele existira?

As mulheres não têm nome. São cinco. O filho que partira e por quem tanto esperam, também não tem. Algumas das coisas nomeadas na história são: chuva, casa, bosque, quarto, mochila, vestido. Ainda que não necessitem nomear-se, elas nutrem sentimentos variados: uma dor pela espera interminável, um ressentimento pela vida desperdiçada, uma volúpia reprimida, um desespero que nunca irrompe, um grito sufocado pelo tempo.

Apesar das brigas, apesar do tempo, apesar dos conflitos, apesar da espera, apesar dos desejos, apesar das conversas, apesar da esperança, apesar do cuidado, apesar da paciência, apesar da dor, apesar da tristeza, apesar da chuva, elas esperam.

Uma história que elas contam repetidamente. Essa história não tem fim, emerge no meio e paira sem horizonte. Nela os personagens estão sempre de esguelha. São mulheres. Cinco mulheres narram, cada uma a sua maneira, a mesma história cujo único ponto em comum é um filho, o caçula. As variáveis multiplicam-se a partir desse elemento de convergência. Todas ficam em volta dessa figura, descortinando um emaranhado de possibilidades.

E se o filho estiver no quarto, como afirmam categoricamente? E se houver mesmo um quarto no andar de cima? E se os barulhos - mínimos - que o filho faz, prostrado em sua cama, realmente forem audíveis?

Esta peça é um quebra-cabeça. As peças que compõem este jogo são as palavras. 

 

Eu Estava em Minha Casa e Esperava que a Chuva Chegasse. O cotidiano de cinco mulheres que esperam a volta do filho, o "caçula". De modo atemporal, descortina-se um contar interminável de hipóteses sobre o retorno do único homem, que partiu de casa, após se desentender com o pai. Texto: Jean-Luc Lagarce. Direção: Antunes Filho., Com CPT. R$ 40. R$ 20 (SSS). R$ 12 (TTT). 21/09 a 16/12. Sextas e sábados, 21h. Domingos e feriados, 18h.Faixa Etária: 14 anosDuração: 70 minutos

 

FICHA TÉCNICA

Eu estava em minha casa e esperava que a chuva chegasse

De Jean-Luc Lagarce

Tradução Maria Clara Ferrer

Direção Antunes Filho

Elenco (por ordem de entrada):

A Filha Mais Velha               Fernanda Gonçalves

A Mais Nova                             Daniela Fernandes

A Segunda                             Viviane Monteiro

A Mãe                                     Suzan Damasceno

A Mais Velha de Todas       Rafaela Cassol

 

Assistente de Direção -         Luana Frez

Cenografia e Figurinos -        Simone Mina

Assistente de Cenografia -              Vinícius Cardoso

Assistente de Figurinos -              Karina Sato e Zineu Simionatto

Costureira -                      Helenita Procópio

Visagista -                           Roger Ferrari

Construção Cenotécnica -             Mario André Caveiro, Eduardo Oliveira, Severino                 Domingos Gomes, Rogério José Dias, Dogival da Silva

Pintura de Arte  -                Karina Sato

Iluminação -                     Edson FM

Operação de Luz e som -             Alexandre Ferreira

Preparação de Corpo  e Voz - Antunes Filho                           

Produção Executiva -          Emerson Danesi

Programa -                          Ricardo Fernandes e Erico Peretta

Pesquisa -                           Phabulo Mendes e Thiago Brito

Fotos -                                 Inês Correa

Secretaria do CPT -               Flavia Dziersk Lima

Direção Geral -                 Antunes Filho

Agradecimentos -                  Raul Teixeira e Fancieli Fischer

 

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